De bem com a rotina

Tenho constatado que a rotina parece incomodar a maioria das pessoas, algo a trazer desconforto a muitos indivíduos como se fosse o pior dos dissabores, uma situação adversa.
Grande parte das pessoas com as quais tenho a alegria de conviver e partilhar experiências dá demonstrações de insatisfação por viver um roteiro que as impede de enxergar a beleza da rotina.

Alguns dicionários afirmam que a rotina é o “caminho percorrido e conhecido, em geral trilhado maquinalmente” ou “seqüência de atos ou procedimentos que se observa pela força do hábito” ou ainda “uso, prática, norma geral de procedimentos”.

Quero crer que muitos não perceberam ainda a riqueza de suas ações cotidianas, ou mesmo não se detiveram nos detalhes de seu comportamento, desde o levantar pela manhã até encerramento das atividades para descansar ao final da noite.

Ousaria afirmar que nós, muitas vezes, não prestamos atenção ao conteúdo das conversas das quais participamos, nem observamos com atenção devida as palavras que emitimos, isto é, o significado de nossa comunicação. Às vezes, nem mesmo distinguimos nossas atitudes e gestos empregados nas relações com nossos amigos, colegas e pessoas que se nos são apresentadas.

Os procedimentos rotineiros podem e devem ser surpreendentes – por isso, maravilhosos, excepcionais –, pois nos oferecem a oportunidade de fazer algo diferente na construção da formação e da dignidade das pessoas; uma aprendizagem mais humana com nossos semelhantes.

Para fazer a vida mais interessante, necessitaríamos romper as barreiras a nos impedir que criemos momentos novos e restauradores para uma efetiva transformação na nossa vida e na dos outros; precisamos transpor os obstáculos que nos fazem inertes e aliados de um hábito asfixiante.

A rotina tornar-se-á admirável para todos quando nos abrirmos para o mundo que vislumbramos e estamos a buscar, porque isso só acontece a partir de nós mesmos e não dos outros. O gesto rotineiro ou a ação a que nos refratamos serão sempre um espetáculo quando nos desfizermos do olhar preconceituoso que trazemos na bagagem do orgulho que carregamos; que nos põe nos degraus da arrogância e auto-suficiência.
Sou defensor da rotina, da vida simples que nos conduz à sabedoria. Aliás, a simplicidade da vida nos faz amantes da rotina, porque temos a chance de observar mais para aprender sempre, cativar as pessoas, conquistar o mundo e viver a vida verdadeiramente.

A rotina não delimita o ser humano; ao contrário, as pessoas se limitam nas ações rotineiras e vivem a resmungar e a se queixar da vida que levam porque não possuem a habilidade suficiente para driblar os desafios aos quais são submetidas. São testes, experiências imensuráveis, favores de Deus.

Nossas contradições, todavia, não nos permitem (como no fundo, no fundo, gostaríamos!) lembrar que só valorizamos alguém ou algo quando não mais encontramos ou perdemos e não temos mais sob o nosso controle aquilo que imaginávamos não ter importância.

Só valorizamos a vida quando estamos impedidos de viver nossa liberdade; consideramos a família quando estamos muito longe de nossas casas; enaltecemos nossos pais quando já não fazem parte do nosso convívio. Enchemos os pulmões e estufamos o peito para falar bem de nosso País quando estamos longe de nossos conterrâneos, de nossa terra e nossas origens.

Na vida precisamos constantemente cultivar a alegria e o bom humor e fazer tudo com sentimento de perfeição, para surpreender as pessoas com momentos especiais.

Que os céus nos permitam entrever seu infinito e atraente azul, mesmo na companhia de nuvens cinzentas, e que a graça do Alto – a nos conduzir vida afora – nos permita realizar, alegremente, os atos mais simples e rotineiros, requerentes da nobreza dos grandes, da espontaneidade e da franqueza das crianças.

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