ENTENDA

Dia Internacional contra a Discriminação Racial

Entenda por que foi criado o Dia Internacional contra a Discriminação Racial

Os ensinamentos de Jesus Cristo, narrados pelos evangelistas, iluminam a caminhada dos cristãos e, essa luz todos conhecemos bem e nos alimentamos dela. Quem nunca ouviu dizer: “Não julguem, e vocês não serão julgados”? (Mateus 7,1). E quem diria que o pecado que corrompe o homem nos levaria além do julgamento dos pecados do próximo, mas nos faria julgar o irmão, sem qualquer motivo, simplesmente pela cor da pele?

Se um irmão que conhecemos falhar no caminho da fé, não nos cabe o julgamento, não devemos lançar uma pedra. Àqueles que conhecemos, nossa opinião se forma por conceitos. Àqueles que não conhecemos, nossa opinião é um “pré-conceito”. Mas o que justificaria lançar pedras àquele que acabamos de conhecer e de quem nada sabemos?

Dia Internacional Contra a Discriminação RacialFoto: Daniel Mafra/cancaonova.com

Objetivo

Historicamente, o racismo tem deixado feridas profundas na humanidade. Entre os anos de 1948 e 1994, a população negra da África do Sul viu-se oprimida por uma rigorosa legislação separatista, conhecida como Apartheid. Em um breve resumo, neste período, os negros (maioria no país), não tinham direitos políticos, só podiam adquirir terras em localidades afastadas e as relações amorosas entre pessoas de etnias diferentes eram proibidas.

O ápice desse regime ocorreu em 21 de março de 1960, quando a polícia abriu fogo em uma manifestação pacífica contra a aprovação das leis do Apartheid, matando sessenta e nove pessoas. O acontecimento ficou conhecido como “o massacre de Sharpeville”. Foi então que, no ano de 1966, a ONU (Organização das Nações Unidas) declarou o dia 21 março como o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial em um convite a todos os povos do mundo, para redobrar os esforços no combate às diversas formas de discriminação racial.

Infelizmente, a tragédia ocorrida na África do Sul, os demais casos conhecidos por todo mundo e os esforços da ONU, ainda não foram o suficiente para conscientizar as pessoas do absurdo do comportamento racista. Segundo dados publicados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 4 de dezembro de 2015, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população. Contudo, ainda são diversos os casos de racismo noticiados pela imprensa, eis que, não raro, encontramos manchetes como “A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil, diz CPI” ou “Movimentos sociais: racismo é causa do alto índice de mortes de jovens negros”.

Não se pode negar que a internet revelou muito do pensamento racista da nossa sociedade, isso porque as redes sociais deram voz a todas as pessoas. A sensação de impunidade expôs os pensamentos racistas que antes não eram revelados.

O que fazer para mudar esse quadro?

Em 1963, dois pesquisadores da Universidade de Oxford publicaram um trabalho científico intitulado “classificação e quantificação do julgamento”. Sessenta e uma pessoas foram avaliadas, entre homens e mulheres, selecionadas de diversas universidades. Foram apresentadas oito linhas com aproximadamente 5% de diferença de comprimento entre elas, o que resultou em, mais ou menos, um centímetro de diferença. As linhas foram apresentadas às pessoas de forma aleatória e foi solicitado que os participantes dissessem o tamanho aproximado de cada linha, apenas observando-as. Porém, em um primeiro momento, as linhas foram apresentadas sem qualquer classificação; depois, as mesmas linhas classificadas em dois grupos (maiores e menores).

A experiência demonstrou que, quando as linhas eram mostradas sem classificação, as diferenças de comprimento apontadas entre elas eram de 11% e 44%, enquanto as mesmas linhas, quando apresentadas em grupos, tinham diferenças apontadas de 100% a 122%. Ou seja, nós temos uma tendência em reforçar as diferenças entre grupos, sejam de linhas maiores ou menores ou de pessoas com pele branca ou negra, ainda que não haja uma diferença significativa entre cada membro individualmente. O que muda entre brancos, negros, vermelhos e amarelos é só a cor da pele (é um centímetro).

Vencendo o preconceito

O experimento mostrou que somos naturalmente preconceituosos, assim, não falar sobre o assunto ou mesmo ignorar a existência do racismo não é a solução. Nós vivemos em uma sociedade preconceituosa, que precisa aprender a lidar com as diferenças e conviver em harmonia. Na carta de São Paulo aos Gálatas, podemos ler: “De fato, vocês todos são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, revestiram-se de Cristo. Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo”. (Gal 3,26-28). É preciso alcançar o amor que nos une e cumprir com o mais importante mandamento: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Não é por menos que os quatro evangelistas nos lembram deste ensinamento, a passagem em que Jesus é questionado sobre o mais importante dos mandamentos se repete nos quatro livros do Evangelho. Ainda, São Tiago nos esclarece: “Se cumprirem a lei mais importante da Escritura – ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’ –, vocês estarão agindo bem. Mas se vocês fazem diferença entre as pessoas, estão cometendo pecado, e a Lei os condena como culpados” (Ti 2,8-9).

Jesus Cristo nos deixou uma missão: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. (Mar 16, 15). Juntos irmãos, preguemos o Evangelho do amor ao próximo, não importando a cor da pele. O combate contra uma sociedade racista exige nossas palavras, o silêncio só piora a situação. Essa luta requer exemplo, sejamos sal na terra, aqueles que amam ao próximo sem preconceitos. Não nos cabe julgar o irmão por seus pecados, muito menos pela cor da pele. Devemos sempre amar, como Jesus Cristo nos amou.

REFERÊNCIAS

A BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. 86 ed. São Paulo: Paulus. 2012.

TAJFEL, Henri. WILKES, A. L. Classification and quantitative judgement. Departament of Social and Administrative Studies. Oxford, 1963. Disponível em: <http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.2044-8295.1963.tb00865.x/epdf>

ESCÓSSIA, Fernanda da. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil, diz CPI, 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295>

MACEDO, Idhelene. Movimentos sociais: racismo é causa do alto índice de mortes de jovens negros, 2015. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/487544-MOVIMENTOS-SOCIAIS-RACISMO-E-CAUSA-DO-ALTO-INDICE-DE-MORTES-DE-JOVENS-NEGROS.html>

UNITED NATION. International Day for the Elimination of Racial Discrimination
21 March. Disponível em: <http://www.un.org/en/events/racialdiscriminationday/background.shtml>

UOL ECONOMIA. Negros representam 54% da população do país, mas são só 17% dos mais ricos. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm>


Luis Gustavo Conde

Advogado com atuação na área de Direito de Família e Direito Bancário. Professor de cursos técnicos. Catequista no Santuário de Nossa Senhora Aparecida em Ribeirão Preto/SP. Palestrante focado na doutrina cristã. Contato: lg.conde@icloud.com Twitter: @guconde12

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