'Se me cativares...'

Dizem que Deus, ao criar o homem, imprimiu em sua essência a habilidade de amar, o desejo de ser amado e a capacidade de cativar seus semelhantes. A meu ver, o resultado disso é a amizade, sentimento nobre que dá sentido à existência humana.

No livro “O pequeno príncipe” de Sant-Exupéry, do qual aliás gosto muito, o principezinho pergunta à raposa: “O que significa isso – cativar?” Ao que ela responde: “É uma coisa que as pessoas freqüentemente negligenciam. Significa estabelecer laços.” E continuou: “Para mim, você é apenas um menino e eu não tenho necessidade de você. E por sua vez, você também não tem necessidade nenhuma de mim. Para você eu não sou nada mais do que uma raposa comum entre tantas. Mas se você me cativar, então nós precisaremos um do outro.”

Concordo com a sabedoria escondida nas entrelinhas deste diálogo. Pois acredito que é assim que acontece conosco dia a dia, mesmo quando estamos envolvidos por outros interesses, e nem nos damos conta disso. O fato é que as pessoas –, que conhecemos, principalmente nos ambientes que começamos a freqüentar –, são pessoas comuns e não sentimos “necessidade” delas, nem elas, de nós, até que nos cativemos mutuamente, e assim, como bem explica a raposa, sentiremos falta um do outro. Refiro-me não ao trabalho ou serviço prestado pela pessoa, mas ao abraço, à partilha, ao sorriso… enfim, à presença dela. E aí entra um dos grandes desafios que cada vez mais deixa de ser enfrentado pelo homem moderno: o deixar-se cativar! Geralmente carregamos marcas de perdas e decepções em nossos relacionamentos, e como isso nos causa muita dor – e como naturalmente não gostamos de sofrer –, evitar qualquer possibilidade de novas decepções, não se deixando cativar, talvez seja a solução imediata e mais segura. Mas seria a opção correta? Certamente não!

Deixar-se cativar, – mesmo correndo risco de sofrer de novo, e ter a coragem de não negligenciar o amor, que é dom próprio para ser doado –, é a essência do desafio em questão.

Ainda no diálogo entre o principezinho e a raposa, ela explica com outras palavras, que cativar significa essencialmente criar laços. Pois isso envolve aspectos emocionais e psicológicos, como a afinidade, a sinceridade e a liberdade. É algo que nasce pausadamente, sem muita pressa, e cresce um pouco mais a cada dia, dependendo do cultivo que lhe é dispensado.

Podemos ir a um shopping center e comprar muitas coisas que desejamos ou até sonhamos em possuir; contudo, com relação a pessoas, isso não funciona.

Já dizia um poeta: “Com gente é diferente…” Todas as vezes em que, num relacionamento, um tenta “comprar” o outro, seja como for, o resultado é trágico. À custa do dinheiro, pode-se até ter a pessoa ao lado, fisicamente falando, mas o coração certamente estará distante. É que este [coração] prefere deixar-se cativar por outro, e isso, como já sabemos, é uma questão de tempo, arte, perseverança e coragem. Só os corajosos amam!

Lendo a mensagem do Santo Padre, dirigida aos jovens por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, nas dioceses este ano, fiquei impressionada com a forma como ele nos convida a ousar no amor. “Queridos jovens, gostaria de vos convidar a “ousar o amor”, isto é, a não desejar nada para a vossa vida que seja inferior a um amor forte e belo, capaz de tornar toda a existência uma jubilosa realização da doação de vós próprios a Deus e aos irmãos, à imitação d’Aquele que mediante o amor venceu para sempre o ódio e a morte (…) O amor é a única força capaz de mudar o coração do homem e a humanidade inteira, tornando proveitosas as relações entre homens e mulheres, entre ricos e pobres, entre culturas e civilizações”.

Arriscar-se no amor em uma civilização como a que pertencemos, é “nadar contra a correnteza”. Enquanto a mídia prega que “ninguém é de ninguém e você pode fazer da vida o que quiser…”, o Autor da vida ensina-nos que o Amor é a única força que dá o verdadeiro sentido à existência e nos desafia a abrirmos o coração à aventura de cativarmos e nos deixarmos cativar.

Citando ainda a relação entre o pequeno príncipe e a raposa, devo lembrar que eles se deixaram cativar, e um deu mais sentido à vida do outro.

Hoje, vivendo em outro país há menos de um mês, e portanto, vendo-me constantemente rodeada de pessoas novas… Uma das minhas decisões diárias tem sido exatamente cativar e deixar-me ser cativada. A experiência tem sido maravilhosa! Convido você a fazer o mesmo. Quem sabe, um dia, poderemos partilhar os frutos desta aventura.

O Amor foi feito para ser doado…

Até a próxima!

Dijanira Silva

Dijanira Silva, missionária da Comunidade Canção Nova, atualmente reside na missão de São Paulo. Apresentadora da Rádio CN América (SP). E-mail: http:// dijanira@geracaophn.com

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