O Poder de um Olhar


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O olhar é algo que me fascina, me encanta, às vezes até me perturba, mas sempre me atrai. É um mistério e uma revelação ao mesmo tempo. Carrego no arquivo das minhas lembranças o olhar sincero do meu pai, que sempre foi referência em minha vida. Muitas vezes, ele não precisava dizer nada para me aprovar ou repreender, bastava um olhar e eu entendia tudo. Aliás, meu pai era um homem de poucas palavras e poucos gestos, mas muito amor. Para compreendê-lo melhor, fui desde cedo treinada na arte de interpretar seu olhar.

Dizem que “o olhar é a janela da alma”… Uma expressão tanto repetitiva como verdadeira. É que os olhos transmitem o que se passa na essência, mesmo quando a boca diz o contrário.

As palavras têm sua importância, mas na arte de transmiti-las, muitas vezes, diminuímos o sentido do que realmente desejamos expressar, acabamos nos confundindo com os termos e sentindo falta da expressão certa que traduza a linguagem do coração. Além disso, existe um espaço entre o que falamos e o ouvido de quem nos escuta, e nesse espaço, nasce a interpretação, que nem sempre corresponde à realidade.

Hoje, enquanto apresentava um programa na Rádio Canção Nova onde trabalho (Rádio Canção Nova FM – Fátima PT), falava com os ouvintes sobre o poder do nosso olhar e li uma história que exalta a importância do olhar amoroso na vida de uma pessoa. Apresento-a aqui, pois acredito que nos ajudará a refletir sobre esse dom precioso e na maneira como o utilizamos no dia-a-dia.

Conta-se que Raoul Follereau, jornalista francês que dedicou sua vida ao cuidado dos leprosos, ao visitar um leprosário em uma ilha do Pacífico, ficou surpreendido ao encontrar, entre os rostos desfigurados e quase sem vida, um homem que conservava os olhos límpidos, vivíssimos, e com um sorriso que a todos iluminava sempre que lhe diziam uma palavra amável ou lhe davam alguma coisa.


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Quando quis saber o que mantinha esse leproso tão agarrado à vida, disseram-lhe que observasse o que lhe sucedia todas as manhãs. E o jornalista descobriu que, todos os dias, o homem descia para o pátio e sentava-se diante do alto muro que cercava o leprosário. Esperava ali, paciente, até que, no meio da manhã, aparecia, durante alguns segundos por cima do muro, um rosto já idoso e cheio de rugas, que lhe sorria com um olhar de amor. Então o homem comungava aquele sorriso e sorria também.

Era o rosto de sua amada esposa que, com fidelidade, todos os dias vinha contemplá-lo. A seguir, a imagem da velhinha desaparecia, mas o doente resplandecia, já tinha alimento para agüentar mais uma jornada e aguardar que, no dia seguinte, regressasse o olhar sorridente que lhe garantia a existência.

O leproso comentava: “Ao vê-la, sei que ainda estou vivo!”
O olhar amoroso da esposa era, de fato, suficiente para transfigurar aquele homem dando-lhe esperança e vida.
É que um olhar de amor faz esquecer as dores e restaura o ânimo, tem uma poderosa força, pois é sinal visível do amor de Deus.

Jesus sabia disso e nos ensinou a lição. Ele mesmo transformou a vida de muita gente com apenas um olhar. Certa vez, quando os olhos d’Ele encontraram os de Zaqueu, o cobrador de impostos que estava em cima de uma árvore para vê-Lo passar, o olhar do Senhor causou tanto efeito na vida daquele homem, que ele nunca mais foi o mesmo. As palavras que vieram depois e até o convite para jantar em sua casa foram conseqüência do olhar com o qual Jesus o amou (Lc 19, 1-10).

Diante da mulher adúltera, condenada por todos, Jesus também a amou com o olhar. As poucas palavras a seguir completaram a mensagem, mas acredito que o milagre da restauração de sua integridade aconteceu primeiro através do olhar daquele Homem, a quem ela jamais deixaria de seguir (cf. Jo 8, 1-11).

Interessante pensar que o olhar tem o poder de vivificar ou matar, depende de quem o transmite. Jesus sabia disso e optava olhar com amor e assim transmitir vida nova a quem se deixava encontrar por Seus olhos. Seguindo os passos do Senhor, sejamos, hoje, portadores de um olhar de amor e façamos a diferença na vida daqueles cujos olhos se encontram com os nossos.

Dijanira Silva

Dijanira Silva, missionária da Comunidade Canção Nova, atualmente reside na missão de São Paulo. Apresentadora da Rádio CN América (SP). E-mail: http:// dijanira@geracaophn.com

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