Estudo

Criogenia: é possível preservar a vida?

O congelamento de corpos ou a criogenia é um ramo da físico-química que estuda tecnologias para congelar corpos a temperaturas abaixo de -150°C

Os gases de nitrogênio, hélio e oxigênio quando liquefeitos podem ser usados em muitas aplicações criogênicas (ex. congelamento de embriões em laboratórios de reprodução artificial; de células-tronco de embriões ou do cordão umbilical).

Criogenia é possível preservar a vida
Foto: Daniel Mafra/cancaonova.com

São muitos os objetivos buscados ao congelar corpos, mas o mais ambicioso é a tentativa de manter a pessoa supostamente “viva” e congelada, na expectativa de, no futuro, encontrar a cura da doença pela qual ela foi acometida. Dessa forma, essa pessoa poderá ser curada e continuar sua vida livre daquela enfermidade. Conforme cientistas do Cryionics Institute, criado com o objetivo de preservação da vida por meio da criogenia, imediatamente após a morte confirmada, o paciente é exposto a uma substância que impedirá a formação de gelo em torno do corpo e, logo em seguida, o corpo é resfriado a uma temperatura muito baixa, mantendo-o por tempo indeterminado em “cryostasis”, ou seja, congelado em nitrogênio líquido. No entanto, os próprios cientistas afirmam que essa técnica não consiste em querer “ressuscitar” a pessoa, pois a criogenia não poderá restaurar pessoas com morte cerebral.

A criopreservação só pode garantir a preservação de estruturas corporais que possam voltar à vida, ou seja, serem restauradas. A criônica tem como objetivo “preservar” corpos humanos recém-falecidos para reanimá-los na posteridade. Muitos cientistas descartam essa possibilidade como algo mais ligado ao campo religioso do que à ciência; afinal, as pessoas são congeladas e ficam à espera de um progresso científico capaz de curá-las de sua enfermidade até então incurável.

A criopreservação é possível, já temos o congelamento de embriões humanos em laboratórios por tempo indeterminado; porém, imaginar que o paciente possa voltar e ser curado da enfermidade já é outra história. Cientistas estão fazendo testes com animais, tecidos e órgãos humanos e garantem que estão tendo sucesso. Para os defensores dessa tecnologia, é como se a pessoa acordasse de um sono profundo muitos anos depois de sua era. Para isso, diferentes laboratórios criogênicos do mundo estão trabalhando exaustivamente e têm a permissão de seus respectivos governos para funcionarem normalmente. Um dos grandes desafios para os criônicos é como reverter os danos biológicos causados pelo processo de esfriamento, ou seja, ainda não possuem a tecnologia para reverter a vitrificação.

O que podemos dizer de tudo isso? Tem-se desenvolvido uma nova expectativa que é funcional, sobretudo, na cruzada da medicina contra a mortalidade: tudo é permitido, salva vidas, cura as doenças e evita a morte, ou seja, deve-se fazer de tudo para preservar a saúde e prolongar o máximo possível a vida; os outros valores devem se curvar na presença de divindades biomédicas como uma melhor saúde, maior vigor e vida mais longa.

Se a vida é um bem e viver mais é melhor, por que não considerar a morte uma doença e lutar para vencê-la a todo custo? O uso das biotecnologias na luta contra a morte levanta razões sérias e importantes para uma reflexão ética acerca da oportunidade da “cura da morte”.

De fato, a vitória sobre a morte é o objetivo implícito da ciência médica moderna e de todos os projetos científicos ao longo da história. São várias as propostas na busca contínua da conquista da natureza para aliviar a condição humana, e para isso instituíram a ciência, cujo objetivo explícito é inverter a maldição caída sobre Adão e Eva, sobretudo recuperar a árvore da vida por meio do conhecimento científico. Para a maioria de nós, especialmente no mundo moderno secularizado, onde as pessoas cada vez mais estão convencidas de que esta é a única vida que nos foi dada, o desejo de estender (mesmo que pouco) a duração da vida é a revelação do desejo de não envelhecer e nunca morrer.

A moralidade da busca contra a morte depende da ação ou do objetivo aos quais o desejo está vinculado. O mal está em sua procura desordenada e desvinculada de nosso verdadeiro fim que é estar em Deus. É necessário que o homem reconheça e aceite a própria realidade e os próprios limites. E, ao abrir-se a Deus, poderá acolher melhor o sentido da própria fragilidade, dos próprios limites e desejos ilimitados.

Não é contrário à natureza, em busca de uma medida ética e digna da pessoa, encontrar meios para lutar contra a mortalidade ou mesmo para envelhecer com melhor qualidade de vida. Na atribuição ética da tecnologia que procura vencer a morte, é preciso avaliar a intenção de tal busca, enquanto tal intervenção é capaz de modificar a natureza humana e as eventuais consequências para a pessoa e para a humanidade. A busca desenfreada da cura da morte, neste caso específico do congelamento do corpos, que afeta a integridade da pessoa na tentativa de atingir uma vida imortal, é uma ofensa contra a dignidade em sua humanidade, é a não aceitação da condição de criatura e como relata o livro do Gênesis sobre Adão e Eva, é querer reivindicar para si o direito de decidir o que é bom e o que mau, uma força perigosa e ameaçadora e da qual cada geração a vive e, por isso, o pecado ainda continua.

Pos graduação em bioetica


Padre Mário Marcelo

Mestre em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), padre Mário é também licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (SC) e bacharel em Teologia pela PUC-RJ. Mestre em Teologia Prática pelo Centro Universitário Assunção (SP). Doutor em Teologia Moral pela Academia Alfonsiana de Roma/Itália. O sacerdote é autor e assessor na área de Bioética e Teologia Moral; além de professor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP). Membro da Sociedade Brasileira de Teologia Moral e da Sociedade Brasileira de Bioética.

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