Brasil

Fraternidade e tráfico humano

Cada um de nós é chamado a se envolver nesta causa social e combater esta perversidade humana

A Igreja do Brasil realiza, há 40 anos, a Campanha da Fraternidade (CF). Durante o período da Quaresma, a proposta procura unir a espiritualidade de conversão e a penitência deste tempo litúrgico, em preparação para a Páscoa, às realidades sociais e às carências humanitárias que exigem um maior comprometimento da nossa fé cristã. Neste ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe como tema “Fraternidade e tráfico humano”, e como lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”.

A sugestão nasceu de entidades ligadas à Pastoral da Mobilidade Humana e aos grupos que trabalham para combater o trabalho escravo. Após um longo aprofundamento sobre o assunto, chegou-se à conclusão de que se trata de uma grave chaga social que afeta o mundo e representa um dos mais sérios problemas humanitários do nosso país.

De acordo com Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT), são consideradas vítimas do tráfico humano pessoas aprisionadas pelo trabalho escravo e a exploração sexual. Em 2012, pelo menos 20,9 milhões foram vítimas deste crime. No Brasil, pelo menos 2,5 milhões de pessoas são vítimas desse aliciamento que envolve crianças, jovens e adultos. Geralmente, as vítimas são pessoas frágeis e inocentes que sonham com uma vida melhor, com a chance de sobrevivência ou uma vida mais digna. Elas são envolvidas em falsas promessas ou simplesmente levadas à força sem qualquer oportunidade de escolha. Tortura psicológica, constantes ameaças, falta de perspectivas ou de qualquer proteção dos órgãos de segurança fazem dessas pessoas presas fáceis dos aliciadores.

A Campanha da Fraternidade de 2014
chega numa boa hora em nosso país. O Brasil é palco de importantes eventos internacionais como Copa do Mundo, neste ano, e Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, em 2016. A realização destes eventos aumenta a oferta e a procura pelo turismo sexual. Denúncias de trabalho escravo e exploração sexual, sobretudo de menores, fazem parte das manchetes dos nossos jornais quase de forma cotidiana. No Congresso Nacional, uma Comissão Parlamentar procura denunciar quem promove esta prática criminosa. A Igreja Católica pretende se unir a outras entidades, a fim de denunciar esses crimes e chamar a atenção da nossa sociedade para um mal social, ao qual, muitas vezes, nós fechamos nossos olhos.

Segundo o Cardeal Cláudio Hummes, a Igreja e toda a sociedade precisam unir forças para coibir essa prática vergonhosa. As iniciativas devem vir desde a mobilização de grupos à pressão junto aos órgãos públicos competentes. “O objetivo central da Campanha da Fraternidade será identificar as práticas de tráfico humano, em suas várias formas, manifestações e denunciá-las às autoridades constituídas, como violação da dignidade e da liberdade humanas, mobilizando cristãos, pessoas de boa vontade e sociedade organizada para erradicar este mal endêmico com vistas ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus”, afirma Dom Cláudio Hummes.

No entendimento do cardeal, a Igreja precisa ser também a mãe que cuida dos seus filhos feridos e machucados, dando-lhes atenção, cuidado, proteção e buscando meios de recuperação para as vítimas dessa brutalidade humana.

O Papa Francisco, desde o início do seu pontificado, tem sido uma voz de denúncia e de clamor pelas vítimas do tráfico humano no mundo todo. Francisco já fez vários pronunciamentos para que a sociedade não se cale diante dessas atrocidades com os filhos e filhas de Deus. “O tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas”, exortou o Pontífice durante uma audiência aos responsáveis do Pontifício Conselho para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes da Santa Sé em maio de 2013. O Papa condenou o tráfico de seres humanos, considerando-o uma “vergonha”. Disse ainda que “exploradores e clientes deveriam fazer um sério exame de consciência diante de si e diante de Deus”.

O Documento de Aparecida afirma que “o tráfico humano é uma das questões sociais mais graves da atualidade” (cf. Celam, Documento de Aparecida, 7ª. Edição, 2008, n.73). No Texto Base da Campanha da Fraternidade, deste ano, a CNNB traça as causas do tráfico humano e quem são os rostos de quem sofre essa exploração. Ao mesmo tempo, a Igreja procura denunciar estruturas e situações causadoras do tráfico e reivindicar dos poderes públicos meios para reinserção das pessoas atingidas pelo tráfico humano na vida familiar e social. Além das vítimas de exploração no trabalho e no caráter sexual, a Igreja aponta o drama do tráfico para a extração de órgãos e o tráfico de crianças e adolescentes para adoção. Outro ponto importante no texto elaborado pela CNBB é a chamada de atenção para o enfrentamento ao tráfico humano e o compromisso da Igreja Católica no Brasil de estar ao lado das vítimas e, ao mesmo tempo, ser um canal de denúncia para não permitir a proliferação desta prática em nosso país.

A integrante do Setor Pastoral da Mobilidade Humana da CNBB e diretora do Instituto de Migrações e Direitos humanos (IMHD), Irmã Rosita Milesi, destaca que, mesmo com a escassez de estatísticas exatas sobre este tema e com o pouco envolvimento dos órgãos públicos e da sociedade nesta causa, nós, como Igreja, precisamos nos colocar ao lado das vítimas. “Aqui, novamente, somos chamados a estar ao lado das vítimas para reerguê-las e curá-las, para denunciar essas violações e demandar o poder constituído, a fim de tomar medidas de enfrentamento deste crime e implementar políticas públicas de assistência às pessoas escravizadas”, afirma a religiosa.

A Campanha da Fraternidade deste ano se une aos trabalhos de organizações, associações e entidades no Brasil e no mundo, que combatem esse crime e procura levar apoio e ajuda às vítimas de toda espécie de tráfico humano.

Cada um de nós é chamado a se envolver nesta causa social e combater esta perversidade humana. Não se iniba em denunciar qualquer suspeita deste crime perto de você. Ao mesmo tempo, não deixe de ajudar entidades que trabalham por esta nobre causa. O trabalho escravo e a exploração sexual acontecem, muitas vezes, ao nosso lado, mas não nos damos conta disso. Cristo nos libertou para que sejamos livres. Trabalhemos pela liberdade das vítimas dessa opressão!

Padre Roger Araújo
Missionário da Comunidade Canção Nova

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